“Fluxo” de Alberto Bitar em dois momentos na Kamara Kó

A retrospectiva de Alberto Bitar “Fluxo” conta com imagens importantes de diversos momentos de sua carreira. Em cartaz na Kamara Kó Galeria, a exposição pode ser conferida em dois momentos, até 30 de abril, e em seguida, de 02 a 30 de junho.

Com a reabertura da galeria, no dia 02 de junho, a programação segue com o lançamento do catálogo “Imêmores (voos)” no dia 12 de junho, e, em seguida, com o bate-papo com a curadora e pesquisadora Marisa Mokarzel, no dia 24 de junho, sobre a trajetória do artista Alberto Bitar.

“Fluxo” tem como seleção obras que estiveram na 30ª Bienal de São Paulo em 2012 ­- A iminência das poéticas ­- incluindo imagens produzidas na década de 90, até trabalhos mais recentes, como imagens da série “Imêmores (voos)” de 2014 e da série “Súbita Vertigem”, de 2015.

Confira na íntegra o texto de Flavya Mutran sobre “Fluxo” a retrospectiva de Alberto Bitar

Sem título, da série Súbita Vertigem 02  150x100cm - ABitar

Correntes alternadas

Fluxo e Fotografia bem que poderiam ser palavras antagônicas, afinal uma não seria sinônimo de movimento e a outra do instante congelado por excelência? Sim e não. É justamente esse aparente contraste que marca essa exposição. Mover e pausar. Capturar o efêmero e deslocar o imóvel.

Parte das obras aqui reunidas remonta à sala individual que Alberto Bitar expôs em 2012 na 30° Bienal Internacional de Arte de São Paulo. A linha curatorial adotada por André Severo, Luis Perez Oramas e Isabela Villanueva teve como tema a Iminência das Poéticas, que privilegiava trajetórias discursivas consolidadas, muito mais que artistas ou obras. Se naquele ano a sala especial de Bitar já ganhava ares de uma retrospectiva com muitas obras das séries Solitude (1991-1994), Hecate (1996-1997), Passageiro (199-2002), Ausência (2004), Efêmera Paisagem (2007-2011) e Corte Seco(2012-2013), hoje isso se reforça com a inclusão de Imêmores (voos) (2014) e Súbita Vertigem (2015), trabalhos mais recentes do artista.

Desde os anos 1990 que Bitar constrói cidadelas imaginárias feito quem instaura um campo de defesa para lidar com o cotidiano. Suas primeiras séries lembram uma espécie de ronda entre territórios intramuros, com paisagens e silhuetas suspeitas numa série de contos urbanos cujos desfechos parecem oscilar entre o bem e o mal. Essa ambiguidade permanece e se consolida cada vez mais que o artista explora sua vocação para roteirizar fotografias, sejam elas feitas em película P&B ou digitais. O espaço da imagem nunca é o que parece, oscila entre as categorizações de suporte, desloca-se no tempo de fruição quando deixa de ser fragmento fotográfico e passa a se comportar feito literatura e cinema. Não é, mas poderia ser. Quem acompanha a trajetória do artista já sabe de suas muitas versões encadernadas ou exibidas em telas de vários formatos. Talvez seus livros e vídeos sejam evidencias de sua predileção pelo fluxo de trabalho sequencial, pela montagem videográfica e pela composição de fotolivros, aos quais o artista dedica desde cedo muita energia.

O gosto pela experiência de imersão na observação prolongada de imagens pode ter surgido na infância, quando Bitar ainda era passageiro dos carros e aviões conduzidos pelo pai, época na qual somos contaminados pela inocência da percepção dispersiva. Inventar enredos silenciosos para lugares-imagens tornou-se mais que memória, hoje é hábito e profissão. É mecanismo recorrente no seu jeito discretamente inquieto de fotografar borrando o foco e tirando o prumo do que parece sólido.

Diferentes arranjos sempre inauguram novos e saudáveis questionamentos, e é por isso que esta exposição torna-se mais que mera remontagem já que embaralha as cartas para uma nova partida. Abre-se aqui um novo jogo. Para um artista, esse movimento que se cria em torno de uma (re)edição deveria ser tão importante para o processo criativo quanto a paixão por novos temas. É assim que se vive a alternância entre correntes de alta e baixa voltagem, é o que motiva e petrifica suas escolhas. A cada exposição vive-se igual dilema entre a incerteza da estreia e o confortável sabor de relembranças. Para nós, observadores do jogo, fica o prazer de visitar lugares-imagens – como diria Marshall McLuhan -, onde nossos olhos dificilmente colocariam os pés, pois são memórias do território imaginativo do artista.

Flavya Mutran

Porto Alegre, abril/2016

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