Exposição “Contraia os olhos: subitamente o ar parece estar mais salgado” abriu para visitação no dia 8 de agosto.

capa convite danielleCom referências de uma terra de águas, seja no aspecto geográfico da cidade onde mora, Belém, ou no metafórico da literatura, por onde viaja outros patamares, a artista visual Danielle Fonseca apresenta trabalhos com essas alusões “líquidas” na primeira exposição individual “Contraia os olhos: subitamente o ar parece estar mais salgado”, que será aberta para visitação no próximo dia 8 de agosto, às 19h, na Kamara Kó Galeria. A curadoria é do filósofo Daniel Lins e a exposição reúne fotografias e algumas esculturas recentes da artista, além de uma instalação. A entrada é franca.

A artista revela que a literatura tem forte influência em sua produção: tanto autores consagrados da literatura mundial como Gertrude Stein e Virginia Woolf, quanto os concretistas Haroldo e Augusto de Campos, Décio Pignatari, além do poeta paraense Max Martins. “Essas são minhas primeiras influências visuais. A literatura certas vezes pode ser tão visual quanto um quadro”, defende.

Em uma série de três fotografias, Danielle mostra uma caixa de correspondência de cor vermelha, fincada na terra submersa, debaixo das pequenas ondas do mar de água doce e amarronzada na praia do Farol, em Mosqueiro, um distrito de Belém, distante 70 quilômetros da capital. As imagens são inéditas e foram originalmente produzidas para o filme que a artista estava produzindo em 2005.

Era um elemento para o filme, fazia parte do cenário, mas como fazia fotos e via como ficava, percebi que as fotos já estavam sendo um trabalho à parte. O filme era baseado no livro ‘Rumo ao Farol’, de Virginia Woolf”, diz Danielle.

Da literatura para o esporte, mais uma vez a água: em sua mais recente produção, desenvolvida a partir das pesquisas para o filme “A Vaga”, produzido com a Bolsa de Pesquisa e Experimentação do Instituto de Artes do Pará (IAP), Danielle mostra as relações entre a prática esportiva e a filosofia. O curador da exposição, aliás, é responsável pelo início das pesquisas de Danielle sobre o universo do surf com a arte.

Após ler o texto ‘Deleuze: O surfista da imanência’, de autoria de Daniel, um grande universo de possibilidades visuais se abriu para minha produção, e foi a partir daí que escrevi o roteiro do filme. Desde então venho desenvolvendo essa pesquisa sobre esse esporte que a meu ver, é muito mais um estudo de filosofia do que um desporto, é dança, performance, reflexão. Arte contemporânea em sua essência”, explica a artista.

A pesquisa teve seus desdobramentos, tanto que saiu do plano audiovisual e foi transposta para objetos tridimensionais: os estudos sobre o modelo de pranchas acabaram em uma série de esculturas, que também serão apresentadas na Galeria. Em um outro momento da mostram uma instalação também recorre às referências marítimas. Uma placa com o modelo das usadas em áreas em que o mar invade a rua será colocada no posto em frente à sede da Kamara Kó.

Me apropriei da placa, ela existe em outro lugar. Está escrito: ‘Atenção! Entrada e saída de maré ao longo’. Fotografei porque achei diferente, é voltada para o movimento do mar. Nesses locais, os moradores já sabem que não podem estacionar, que o mar invade”, diz Danielle.

Sobre a produção de imagens e a relação da artista com as coisas de água, Daniel Lins descreve: “Danielle fotografa com o ventre. Com o plexo solar. Proteínas. Seiva. Leite revigora-dor. Potente. Lágrimas. Fertilidade. Morna/quente como a vida. Trata-se de uma imagem/foto revitalizada: talento e imaginação líquidos”. O curador destaca ainda que a artista produz a partir, principalmente, da presença do traço humano na paisagem, o que concede ao trabalho um caráter narrativo.

Ela transita, porém, por limiares de alfabeto cigano, despedaçando a gramática ou tornando-a intercessora. Livrando-a, pois, de sua tarefa ‘cuidadosa’, impostora, enganadora. É pelo meio que as imagens de Danielle passam. Intermezzo. Como uma carta no correio. Palavra e água! A caixa-de-correspondência é bem mais que um objeto natural, que nos revelaria seu ‘conto’ escrito com cânticos/cicatrizes, e que nos falaria do processo que a produziu. Aqui o objeto não é o fruto de uma intenção, mas de uma vibração”, escreve o curador.

Categorias:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *